Risoto de Queijo Brie com Pera... ou, vivo um ermo dentro de mim...

"Quem éramos? Seríamos dois ou duas formas de um? Não o sabíamos nem o perguntávamos. Um sol vago devia existir, pois na floresta não era noite. Um fim vago devia existir, pois caminhávamos. Um mundo qualquer devia existir, pois existia uma floresta. Nós, porém, éramos alheio ao que fosse ou pudesse ser, caminheiros uníssonos e intermináveis sobre folhas mortas, ouvidores anônimos e impossíveis de folhas caindo. Nada mais. Um sussurro, ora brusco, ora suave, do vento incógnito, um murmúrio, ora alto, ora baixo, das folhas presas, um resquício, uma dúvida, um propósito que findara, uma ilusão que nem fora - a floresta, os dois caminheiros, e eu, eu, que não sei qual deles era, ou se era os dois, ou nenhum, e assisti, sem ver o fim, a tragédia de não haver nunca mais do que o outono e a floresta, e o vento sempre brusco e incerto, e as folhas sempre caídas ou caindo. E sempre, como se por certo houvera fora um sol e um dia, via-se claramente para fim nenhum, no silêncio rumoroso da floresta." (Livro do Desassossego - Fernando Pessoa)


Carrego um ermo dentro de mim. Um ermo que em dias quaisquer, trás desassossego à alma. Não tem relação com estar triste, com uma pessoa ou com qualquer acontecimento que o possa gerar... é assim. É como se ao acordar pela manhã, estivesse lá... a me aguardar. As cores do dia interferem nas emoções suscitadas, mas não as evitam. Pode durar um instante, algumas horas, um dia... Em momentos assim, vivo esse ermo e a ele me entrego.

Hoje está sendo assim e cada pedaço da receita preparada, foi sentida assim, como um ermo...




Separe duas xícaras de Arroz Arbóreo, Caldo de Legume feito em casa, cem gramas de Queijo Brie cortado em pequenos cubos, uma Pera descascada e cortada em pequenos cubos, Cebola Roxa picada que baste, dois dentes de Alho socado, Salsinha picada que baste, duas colheres de sopa de Manteiga, um pouco de Vinho Branco, Pimenta do Reino moída que baste e Sal a gosto.

Para fazer o caldo de legumes, em uma panela grande, cortei duas cenouras em rodelas, um pimentão verde, uma cebola, um molhe de cebolinha e um aipo. Deixei ferver por vinte minutos e reservei.

Em uma panela, em fogo baixo, derreti uma colher de sopa de manteiga. Refoguei a cebola por um minuto e adicionei o alho, sempre mexendo. Acrescentei a pimenta do reino e mexi. Juntei o arroz e misturei com o refogado. Adicionei a salsinha picada e misturei tudo, deixando o arroz cozinhar um pouco. Em seguida, acrescentei o vinho branco, misturei ao arroz e deixei reduzir. Coloquei um pouco de água morna e adicionei o sal. Acrescentei uma concha do caldo de legumes e deixei ferver e cozinhar um pouco.

"Neste crepúsculo das disciplinas, em que as crenças morrem e os cultos se cobrem de pó, as nossas sensações são a única realidade que nos resta. O único escrúpulo que preocupe, a única ciência que satisfaça, são os da sensação.

Um decorativismo interior acentua-se-me como o modo superior e esclarecido de dar um destino à nossa vida. Pudesse a minha vida ser vivida em panos de arrás do espírito e eu não teria abismos que lamentar." (Livro do Desassossego - Fernando Pessoa)

Fui acompanhando e acrescentando o caldo de legumes aos poucos, sempre mexendo e quando adicionava o caldo de legumes, adicionava também, uns três ou quatro pedaços do queijo brie e da pera e mexia, para ficar bem incorporado ao risoto.

Repeti o ritual até o risoto ficar al dente, que coincidentemente, foi o tempo necessário para utilizar todo o caldo de legumes preparado.

Desliguei o fogo e adicionei o restante do queijo brie e da pera e mexi bem, incorporando ao risoto pronto. Acrescentei uma colher de manteiga e mexi. Acertei o sal.

Pronto... o risoto está pronto.

Prove... se preferir, acrescente um pouco de parmesão ralado e misture para incorporá-lo ao prato.

Deixe descansar por pelo menos 5 minutos antes de servir.


Para servir, cortei folhas de Rúcula em tiras e coloquei no fundo do prato. Por cima, servi o Risoto de Queijo Brie e Pera. Finalizei com Castanhas trituradas e acompanhei com Batata Rústica.





Por essas convergências que não sabemos explicar, vivo hoje com Nannn e com Tulipa, que entendem os dias assim e me acolhem com um abraço, um beijo, ou simplesmente, com um olhar.


"Em todos os lugares da vida, em todas as situações e convivências, eu fui sempre, para todos, um intruso. Pelo menos, fui sempre um estranho. No meio de parentes, como no de conhecidos, fui sempre sentido como alguém de fora. Não digo que o fui, uma só vez sequer, de caso pensado. Mas fui-o sempre por uma atitude espontânea da média dos temperamentos alheios.

Fui sempre, em toda a parte e por todos, tratado com simpatia. A pouquíssimos, creio, terá tão pouca gente erguido a voz, ou franzido a testa, ou falado alto ou de terça. Mas a simpatia com que sempre me trataram, foi sempre isenta de afeição. Para os mais naturalmente íntimos fui sempre um hóspede, que, por hóspede é bem tratado, mas sempre com a atenção devida ao estranho, e a falta de afeição merecida pelo intruso.

Não duvido que tudo isto, da atitude dos outros, derive principalmente de qualquer obscura causa intrínseca ao meu próprio temperamento. Sou porventura de uma frieza comunicativa, que involuntariamente obrigo os outros a reflectirem o meu modo de pouco sentir.

Travo, por índole, rapidamente conhecimentos. Tardam-me pouco as simpatias dos outros. Mas as afeições nunca chegam. Dedicações nunca as conheci. Amarem, foi coisa que sempre me pareceu impossível, como um estranho tratar-me por tu.

Não sei se sofra com isto, se o aceite como um destino indiferente, em que não há nem que sofrer nem que aceitar.

Desejei sempre agradar. Doeu-me sempre que me fossem indiferentes. Órfão da Fortuna, tenho, como todos os órfãos, a necessidade de ser o objecto da afeição de alguém. Passei sempre fome da realização dessa necessidade. Tanto me adaptei a essa fome inevitável que, por vezes, nem sei se sinto a necessidade de comer.

Com isto ou sem isto a vida dói-me." (Livro do Desassossego - Fernando Pessoa)

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