Pão Caseiro de Trigo e Milho... ou, manhã, tão bonita manhã...


"A poesia é sempre um ato de paz.
O poeta nasce da paz como o pão nasce da farinha."

(Pablo Neruda, de Confieso que he vivido)

Acordar cedo e colocar o pão para assar, faz o dia começar completo. Não importa o tempo que esteja lá fora ou o que você tem para fazer durante o dia.

Sentar à mesa, no chão ou sobre uma pedra... uma xícara de café quente, o pão que você assou, ainda quente, com manteiga e um livro de poesia.


Preparei a massa no dia anterior, naquela luz em que o dia vai findando e a noite vem chegando.

A receita rende muito. Se for apenas você, vale a pena fazer meia receita.

Usei meio quilo de Farinha de Trigo, meio quilo de Farinha de Milho, um Ovo, dois pacotinhos de 10g de Fermento Seco, dois copos de requeijão de Água morna (quase fria), cinco colheres de sopa de Açúcar, uma colher de sopa de Sal, nove colheres de sopa de Manteiga (pode ser substituída pelo Óleo), uma colher de sopa de Gergelim e uma colher de sopa de Sementes de Chia.

Misture o fermento na água morna e deixe por pelo menos cinco minutos. Acrescente o ovo, o açúcar, o sal e a manteiga. Misture tudo. Acrescente o gergelim e as sementes de chia e misture. Em uma vasilha, misture as duas farinhas e vá acrescentando aos poucos aos demais ingredientes. À medida que acrescente as farinhas, vai misturando com a mão. Quando a massa estiver soltando das mãos (acrescente mais farinha de trigo, se for necessário), sove a massa até ela ficar macia. Deixe descansar por pelo menos uma hora antes de levar ao forno.


Para assar, unte uma forma apenas com farinha de trigo, abra a massa e corte-a no formato em que desejar. Faça cortes leves na superfície, salpique mais gergelim e leve ao forno em temperatura baixa. Quando estiver levemente dourado, está pronto.

Saboreie os aromas... da massa crescendo e do pão assando.

Como disse, deixei a massa descansar até pela manhã e fiz a primeira fornada. A segunda, será ao final do dia, para comer com Cogumelos Paris e Queijo.


Ode ao pão

Pão, com farinha
Água
E fogo
Te levantas.
Espesso e leve,
Reclinado e redondo,
Repetes
O ventre da mãe,
Equinocial

Germinação
Terrestre.
Pão,
Que é fácil
E que profundo tu és:
No tabuleiro branco
Da padaria
Estendem-se as tuas filas
Como utensílios, pratos
Ou papéis,

E de súbito a onda
Da vida,
A conjunção do germe
E do fogo,
Cresces, cresces
De súbito
Como
Cintura, boca, seios,
Colinas da terra,
Vidas,

Sobe o calor,
Inunda-te
A plenitude,
O vento
Da fecundidade,
E então
Imobiliza-se a tua cor de ouro,
E quando já estão prenhos
Os teus ventres
A cicatriz escura

Deixou sinal de fogo
Em todo o teu dourado
Sistema de hemisférios.
Agora intacto.
És ação de homem
Milagre repetido, vontade da vida.
Ó pão de cada boca
Não te imploraremos
Nós, os homens,
Não somos mendigos
De vagos deuses

Ou de anjos obscuros:
Do mar e da terra
Faremos pão,
Plantaremos de trigo
A terra e os planetas
O pão de cada boca
De cada homem, em cada dia
Chegará porque fomos
Semeá-lo e fazê-lo,
Não para um homem, mas

Para todos,
O pão, o pão
Para todos os povos
E com ele o que possui
Forma e sabor de pão
Repartiremos: a terra,
A beleza, o amor,
Tudo isso
Tem sabor de pão,
Forma de pão,
Germinação de farinha,

Tudo
Nasceu para ser compartilhado,
Para ser entregue,
Para se multiplicar,
Por isso, pão,
Se foges
Da casa do homem,
Se te escondem,
Se te negam,
Se o avarento
Te prostitui,
Se o rico

Te armazena,
Se o trigo
Não procura suco e terra,
Pão,
Não rezaremos,
Pão,
Não mendigaremos,
Lutaremos por ti com outros homens,
Com todos os famintos,
Por todos os rios, pelo ar
Iremos procurar-te,
A terra toda repartiremos

Para que tu germines,
E conosco
Avançará a terra:
A água, o fogo, o homem
Lutarão junto a nós.
Iremos coroados
De espigas, conquistando
Terra e pão para todos,
E então,
Também a vida
Terá forma de pão,
Será simples e profunda,
Inumerável e pura.

Todos os seres terão direito
À terra e à vida,
E assim será o pão de amanhã,
O pão de cada boca,
Sagrado,
Consagrado,
Porque será o produto
Da mais longa e dura
Luta humana.
Não tem asas
A vitória terrestre:

Tem pão sobre os seus ombros,
E voa corajosa
Libertando a terra
Como uma padeira
Levada pelo vento.


(Pablo Neruda)

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